quinta-feira, 29 de março de 2012

Faltam áreas de lazer em Salvador à noite

No Dique algumas áreas são bem iluminadas, mas outras ficam com iluminação insuficiente
 
Salvador tem mais de 20 quilômetros de orla, da Barra até Itapuã, com inúmeras áreas apropriadas naturalmente ao lazer. A cidade possui ainda dezenas de praças espalhadas pelos bairros da capital, a terceira maior do país em número de habitantes. A parte negativa é que nem todo esse espaço é suficiente para atrair a população, principalmente à noite. Falta o básico: estrutura e segurança.
O que se vê como únicas opções de lazer à noite atualmente na capital são espaços privados ou  os espaços públicos que possuem bares em seu entorno, como nos bairros do Rio Vermelho e Itapuã . Sem ter para onde ir, principalmente se a ideia é lazer gratuito, a população recorre aos bares, cinema, teatro ou, na falta de dinheiro, ficam em casa. Poucas sentem-se seguras em frequentar os espaços ao ar-livre como os parques, praças e a orla.
Sair à noite para uma atividade esportiva em uma praça de Salvador requer coragem. A cidade é apontada como a 22ª mais violenta do mundo depois das 20 horas, segundo estudo da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal. Basta dar uma passeada pela orla ou pelas principais praças da cidade para encontrá-las praticamente vazias à noite. Raros frequentadores se arriscam a exercitar-se entre às 18h e às 20h.
Em toda a extensão da orla, a partir da Pituba até Itapuã, somente dois policiais faziam uma ronda no calçadão do Jardim de Alah, na última terça-feira. Os agentes disseram que outros quatro PMs, em duplas, policiam a área do Costa Azul e Aeroclube, mas nenhum deles foi visto nesse dia. A reportagem voltou a circular à noite pela cidade ao longo da última semana e somente dois dias depois, na quinta-feira, dois agentes militares faziam a segurança na região do Aeroclube.
Em Itapuã, onde existe uma movimentação maior por conta da presença de bares e quiosques, a falta de segurança é motivo de reclamação de vendedores, comerciantes e frequentadores do local. A 12ª Delegacia, localizada em frente à área citada, não inibe a ação de homens que passam com revólveres ou ameaçando pessoas, contou Flávio dos Santos da Silva, vendedor de uma barraca de cocos que fica na área.
Infra-estrutura deficiente - Além da insegurança, falta estrutura básica como atrativo. Praças novas como a da Pituba estão vazias por falta de equipamentos de lazer. Construída na antiga área do Clube Português, a praça custou R$ 150 mil aos cofres públicos, mas só tem bancos, poucas árvores e uma iluminação quase inexistente. Na última semana, o local não tinha uma pessoa sequer às 20 horas.
“Que tipo de atrativo tem essa praça nova da Pituba? Só tem o básico, mas não existe iluminação suficiente, não vejo seguranças pelo local. Tem que ter quiosque, parque, área iluminada. Assim, do jeito que fizeram, não dá certo”, opinou o engenheiro Ivanildo Santos, 37 anos, enquanto tomava uma água-de-coco.
A outra praça da Pituba, a Nossa Senhora da Luz, localizada em frente à igreja homônima, apesar de possuir parque para crianças, bancos, chafariz e ser arborizada, também não é um local dos mais seguros porque a iluminação é insuficiente. Às 20 horas da última quinta-feira, somente um casal, com dois filhos, estava no local. Moradores de Marechal Rondon, o garçom Raimundo Alves, 50, e a empregada doméstica Thaís Rocha dos Santos, 28, foram levar os filhos para ver o chafariz, mas garantiram que não passariam das 21 horas lá.“A gente fica meio desconfiado. Não tem um segurança aqui”.
A Prefeitura foi procurada para falar sobre a falta de seguranças no período da noite nas áreas públicas da cidade, e, através da Secretaria de Comunicação, informou que nas praças Nossa Senhora da Luz e Wilson Lins, a Guarda Municipal mantém um efetivo de oito agentes - quatro pela manhã e quatro à tarde, e que uma viatura faz ronda na região à noite.
Requalificação - O problema da falta de estrutura básica das praças e da orla para a criação de espaços de convivência qualificados na cidade – com quiosques, parques, ciclovia, coleta de lixo – não se resume à nova praça da Pituba.
De acordo com a Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal), a Prefeitura já entregou quase 640 praças novas e/ou requalificadas em diversos bairros. Mas, apesar dos números, os problemas persistem na percepção da população. No Dique, por exemplo, local onde muita gente corre ou caminha em dias de semana e que é propício para o lazer por conta da beleza natural do local, a iluminação é precária.
Ruas mal iluminadas, aliás, é um dos mais graves problemas em toda a orla. Enquanto em Piatã há bastante luz, outros trechos ficam às escuras, como Jaguaribe e atrás do Aeroclube, onde muita gente usa o calçadão para caminhar.
Na região do Aeroclube, o casal Cláudio Ribeiro, 27, e Renta Pontes, 28, contou que, há um ano, testemunhou um assalto a um ciclista, num final de tarde. “Só vimos a correria, e um homem fugindo com a polchete do ciclista”, contou Ribeiro.
No Costa Azul, onde o movimento é grande entre às 18 e 20 horas por conta da prática de atividade física no calçadão, falta iluminação em toda a área do coqueiral. Além disso, o parque que havia no local foi retirado, para grande frustração do filho de vendedor de cocos da área, Edilson Souza Borges, que comercializa o produto na região há mais de vinte anos.
O Abaeté é uma lagoa escura - No Abaeté, boa parte do parque também fica às escuras, inclusive a lagoa, maior atrativo turístico do local. Durante a semana, são os bares que garantem o movimento do parque, que só conta com dois sanitários químicos, quantidade irrisória para um espaço tão grande.
Um vendedor de bebidas que não quis se identificar, conta que os desavisados que vão para a lagoa correm risco devido à violência. “As pessoas que não conhecem e vão para a lagoa, que é um lugar muito bonito do Abaeté mas inseguro, estão sujeitas a ter uma arma apontada para a cara delas”, advertiu o vendedor. Segundo ele, o movimento de visitantes na área tem diminuído ao longo dos anos devido aos problemas de insegurança e falta de estrutura. “Antes, pessoas de vários lugares do mundo passavam por aqui. Hoje, a maioria, que não é tanta gente assim, é pessoal daqui mesmo. As pessoas estão desaparecendo porque têm medo”.
Outro comerciante, que também falou na condição de não ter seu nome divulgado, acredita que, além de segurança e problemas de iluminação, o movimento de turistas foi comprometido pela falta de estrutura, pelos equipamentos de lazer quebrados e limpeza ineficiente. “Tem uma placa que indica reforma, mas essa reforma parece que é em câmera lenta. Enquanto isso, o parque se tornou uma área de lazer quase inativa”.
Quanto a iluminação pública, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura informou que a Secretaria de Serviços Públicos e Prevenção à Violência (Sesp) avaliou a situação e deve iniciar as substituições de lâmpadas a partir da próxima segunda-feira, 2. O órgão também, segundo a assessoria, está catalogando os demais pontos da cidade para fazer as intervenções necessárias.

Fonte: Jornal A tarde

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