A sala da liderança do Democratas na Câmara tem apenas uma foto na
parede. É de Luís Eduardo Magalhães. Filho de Antonio Carlos Magalhães e
ex-presidente da Câmara, Luís Eduardo simboliza um tempo que o partido
não gosta de esquecer. Modernizador, carismático, poderoso, ele foi
preparado longamente para levar o então PFL de volta ao poder central.
Em 1998, iria para o governo da Bahia. Nos planos no PFL, em 2002
estaria pronto para chegar ao Palácio do Planalto com auxílio do
presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas no dia 21 de abril de 1998, um
infarto fulminante levou Luís Eduardo e, com ele, as esperanças de toda
uma geração do partido.
Desde então, uma espécie de maldição parece pairar sobre o partido -
rebatizado em 2007 como Democratas, ou DEM. Rosena Sarney, Cesar Maia,
José Roberto Arruda e agora Demóstenes Torres. Todos nomes cotados, em
maior ou em menor grau, para disputar a Presidência da República. Todos,
por motivos diversos, abatidos antes mesmo do início da campanha.
Do luto de Luís Eduardo ao de Demóstenes, passaram-se 14 anos. Neste
período, o partido deixou de ser governo e viu sua bancada que era de
105 deputados encolher para 27. E, pior, disseminou-se entre os
correligionários uma discussão impensável para o outrora maior partido
do país: o caminho para o DEM é a fusão a um grande partido?
Na última semana, O GLOBO ouviu 23 dos 31 parlamentares da legenda.
Entre eles, 74% são contra a fusão hoje. Mas, a opinião disseminada é
que a medida pode tornar-se inevitável, dependendo do resultados das
eleições deste ano. Metade dos ouvidos opinou sobre a possibilidade de
uma fusão. O PMDB foi o partido preferido, com 50% dos votos, o dobro do
PSDB.
Partido espera manter fundo de R$ 5,4 milhões
Além das eleições, nos próximos meses outro fator pesará na definição do
futuro da legenda. O TSE julgará em breve se o DEM terá o direito de
manter o tempo de televisão e o valor do fundo partidário proporcional à
bancada que elegeu em 2010 ou se perderá parte deles para o
recém-criado PSD — o partido de Gilberto Kassab que tomou 16 deputados
da legenda.
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, manifestou-se na última
semana a favor do DEM. Caso o TSE concorde com a PGR, o partido
continuará tendo um papel importante na definição de alianças
partidárias nas eleições deste ano e na de 2014 — tem a oferecer
preciosos minutos de propaganda na TV e um bom naco do fundo partidário.
Com base na bancada de 43 deputados federais que elegeu em 2010, o DEM
receberá este ano do fundo partidário cerca de R$ 5,4 milhões, valor
semelhante ao que será destinado ao PSDB e menos da metade do que recebe
o maior partido (PT), R$ 12,2 milhões.
Os líderes do partido se fiam nessa expectativa positiva para manter viva a esperança de sobrevivência.
- O gado foi embora, mas ficamos com as benfeitorias da fazenda -
comentava recentemente o ex-deputado federal José Carlos Aleluia (BA) em
conversa com amigos no Congresso.
Partido não esconde mágoa com tucanos
Na hipótese de o Tribunal Superior Eleitoral dar ganho de causa ao PSD,
repassando ao partido do prefeito Gilberto Kassab os minutos de TV e os
milhões de reais, o debate sobre fusão tende a ser antecipado. Aí
sobrevém um outro problema para a legenda: que caminho seguir.
Dentro do DEM há nitidamente uma mágoa acentuada com o PSDB, aliado
preferencial das últimas cinco eleições presidenciais. Os Democratas se
queixam que não têm sido respeitados como deveriam. Prova disso é que na
enquete feita pelo GLOBO na última semana, o PMDB foi de longe o
partido preferido em caso de fusão, obtendo o dobro de votos do PSDB.
- Ir para o PSDB é ser praticamente engolido. Não dá. Eles são fominhas.
Mas o PMDB é um partido malvisto, com fama de fisiológico - diz o
deputado Júlio Campos (MT), diagnosticando a encruzilhada democrata.
Campos refere-se às dificuldades que o DEM encontra para obter apoio dos
tucanos. O DEM lidera as pesquisas em Salvador com o deputado ACM Neto e
disputa a liderança em Recife, com Mendonça Filho. Apesar de os nomes
do PSDB terem nessas cidades intenções de voto muito inferiores às dos
democratas, os tucanos até agora não aceitaram fechar aliança. O quadro
se repete Brasil afora.
- O problema hoje é que o PSDB não nos valoriza. Por isso há quem
defenda hoje a aproximação com o PMDB. É preciso definir se essa é ou
não é uma aliança, que implica em um partido ajudar o outro - afirma o
deputado Rodrigo Maia, ex-presidente da sigla e candidato à prefeitura
do Rio. - O nosso negócio é nos sentirmos parte do projeto majoritário
do Aécio, como não nos sentimos no do Serra.
Uma prova do grau de preocupação da legenda com a disputa eleitoral
deste ano é o fato de quase todo parlamentar da sigla saber na ponta da
língua grandes cidades onde são favoritos: Salvador, Aracaju, Macapá,
Mossoró, Feira de Santana, Caruaru e Vila Velha. Como herdeiro do velho
gigante da ditadura, o DEM sabe que sem governos, não há quem resista.
- Há um grupo de parlamentares que, mesmo tendo ficado na oposição, se
sente ameaçado. O senso crítico no Brasil passou a ser crime - avalia o
democrata goiano Ronaldo Caiado.
As informações são do O Globo
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